Alvarás em São Paulo:
o que está em jogo para quem
comprou, investe ou quer construir
Em menos de 45 dias, São Paulo viveu um dos episódios mais perturbadores do mercado imobiliário recente — e o capítulo ainda não acabou. Entenda o que aconteceu, onde estamos agora e o que ainda pode mudar.
O que aconteceu — sem juridiquês
Em 24 de fevereiro de 2026, um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo assinou uma decisão que, na prática, paralisou toda a emissão de alvarás de construção, demolição e supressão vegetal na maior cidade do Brasil. A medida atendeu a um pedido do Ministério Público, que questionou a constitucionalidade da revisão da Lei de Zoneamento aprovada em 2024.
O argumento do MP era que o processo legislativo teria tido falhas na participação popular e no planejamento técnico exigidos pela Constituição Estadual. A Prefeitura e a Câmara responderam que foram realizadas 38 audiências públicas, com documentação técnica de 64 páginas — e que o próprio MP foi convidado para todas e não compareceu a nenhuma.
“Qualquer um que precise fazer obra está suspenso por tempo indeterminado. Nos parece uma decisão que vai paralisar a cidade.”
— Presidente executivo do Secovi-SP, ao comentar a liminarDo dia para a noite, incorporadoras, construtoras, arquitetos, compradores e até obras públicas — creches, escolas, hospitais — foram jogados numa zona de incerteza sem precedentes.
Por que isso importa para você
Se você comprou um imóvel na planta em São Paulo nos últimos dois anos, precisa entender o que estava em jogo. A revisão do zoneamento de 2024 alterou parâmetros construtivos em cerca de 6% das quadras da cidade — e alguns empreendimentos aprovaram seus projetos com base nesses novos parâmetros.
Se a lei for eventualmente declarada inconstitucional pelo TJ-SP no julgamento de mérito, os riscos concretos incluem:
- Revisão de projetos já aprovados que extrapolam os parâmetros do zoneamento anterior
- Possível exclusão de andares ou unidades em empreendimentos em construção
- Obrigação de devolução de valores a compradores de unidades que venham a ser suprimidas
- Em casos extremos, impacto sobre obras em fase avançada, incluindo fundações
- Impacto direto no cronograma e na rentabilidade de investimentos no setor
A decisão do ministro Fachin suspendeu a liminar, mas não julgou o mérito da ação. A ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) continua em tramitação no TJ-SP. Os alvarás voltaram a ser emitidos — mas a insegurança jurídica permanece até o julgamento final.
Política, eleições e o timing desta crise
Não é ingenuidade observar que estamos em ano eleitoral. A revisão do Plano Diretor e do zoneamento de São Paulo é, historicamente, um tema sensível — envolve interesses de incorporadoras, movimentos de moradia, ambientalistas e políticos de todos os espectros.
O questionamento do MP sobre participação popular em audiências públicas pode ter motivações técnicas legítimas — mas o efeito prático foi paralisar o licenciamento de toda uma metrópole, com impacto desproporcional que atingiu até obras públicas essenciais, como apontou o próprio Fachin em sua decisão.
Com o julgamento de mérito ainda pendente no TJ-SP e um ambiente político aquecido até dezembro, a tendência é que esse tema continue gerando ruído, incerteza e — para quem não estiver bem assessorado — decisões equivocadas de compra ou investimento.
O que fazer agora — visão de arquiteto
Como arquiteto urbanista com mais de 20 anos de atuação em aprovações, regularizações e licenciamento em São Paulo, minha leitura prática é a seguinte:
- Se você já comprou — verifique se o seu empreendimento foi aprovado com base no zoneamento de 2016 ou no de 2024. Essa diferença é crucial para avaliar seu nível de exposição ao risco.
- Se você está pensando em comprar na planta — exija saber qual legislação embasou a aprovação do projeto e se o alvará já foi emitido. Não compre no escuro.
- Se você é investidor — empreendimentos com obra concluída ou em fase final, com habite-se emitido, estão fora desse risco. Vale revisitar a estratégia.
- Se você tem obra própria ou irregular — o momento é oportuno para regularizar antes que novas instabilidades legislativas aumentem a complexidade dos processos.
Segurança jurídica não é burocracia. É a diferença entre um patrimônio sólido e uma dor de cabeça que pode durar anos.
— Vinicius Vieira, Arquiteto UrbanistaConclusão — o capítulo ainda não acabou
A suspensão da liminar pelo STF foi um alívio real para o mercado. Mas chamar isso de “resolução” seria precipitado. O julgamento de mérito no TJ-SP ainda acontecerá — e seu resultado pode redefinir as regras do jogo novamente.
O que este episódio revelou, acima de tudo, é a fragilidade do planejamento urbano quando exposto a disputas políticas e institucionais. Para quem investe, compra ou trabalha com imóveis em São Paulo, o recado é claro: contar com assessoria técnica qualificada não é um luxo. É proteção.
Especialista em regularização de imóveis, aprovação legal de projetos e assessoria técnica imobiliária em São Paulo e região. Representante credenciado Tibério Construtora.
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